
Atento, o homem que tocava esperava por sinais de aprovação enquanto contabilizava, com olhar de leão, o resultado das vendas dos cedes que sua mulher e a filha ofertavam ao público.
Pensou: talvez sejam vendedores de carnês, de balas, de pilhas; talvez recém chegados do interior em busca de trabalho, de casa, de comida; talvez flanelinhas ou camelôs agora sem tablado; talvez ex-presidiários; talvez desempregados.
A música embalava a dança do tocador de violino que solava O Sole Mio – a canção italiana mais italiana de todas. Ele tocava seu violino e fazia passos de dança para frente e para o lado.
Foi quando os olhos espertos do músico pinçaram, na terceira fila da plateia, um homem alto, gordo, barbado e impecavelmente vestido como se estivesse esperando, na coxia da caixa teatral, a vez de entrar em cena. Parecia ser Pavarotti a acenar-lhe com um lenço branco da mais pura seda indiana e logo, como em um espetáculo teatral, o barbado começou a cantar suave, lírico, apaixonado.
O virtuose violinista tirava o máximo do instrumento. O som vinha do alto-falante que estava lá atrás numa caixa encostada no muro de pedra que cercava o chalé da praça.
Também lá, justo ao lado, sentado na pedra fria da calçada, se encontrava um homem borracho de caña, bêbado por completo. A cabeça, escondida entre os braços cruzados sobre os joelhos dobrados, balançava lenta. Vez por outra ele levantava, guardava o rosto entre as mãos sujas e chorava, chorava muito, não cantava, só chorava. Logo cruzava os braços sobre os joelhos e se escondia novamente. O corpo mole quase caia para o lado. E chorava. Até que arriou derrubando o equipamento de sonorização provocando o maior estrago.
Por conta da desordem, o som do violino não era mais ouvido pela plateia então entusiasmada. O violinista, alheio, seguiu tocando para o gorducho barbado - e só para ele - até que foi ofuscado pelos raios de sol que brilhavam como as luzes de palco. Não mais enxergava o tenor da terceira fila. Perdera-o. Não ouvia mais a voz do italiano tão-pouco o som do próprio instrumento.
Quando conseguiu se proteger da claridade, depois de esfregar o rosto com as mãos trêmulas, viu que a plateia delirava e aplaudia eufórica. Ficou emocionado como quando tudo aconteceu na primeira vez. Fez mesuras. Estendeu os braços na direção de Pavarotti, mas, decepcionado, não o encontrou mais naquele lugar. Curvou-se em reverência uma, duas, três vezes. Mas era o bêbado que chamava a atenção da plateia, pois, apoiando-se na mureta, acabara de urinar na caixa de som do tocador de violino do Largo do Mercado.
Beleza de texto!
ResponderExcluirDeve ser o melhor devaneio que um violinista pode ter: ver Pavarotti assistindo-o e cantando com aquela voz única!
Abraço!
Obrigado pela visita, Jeferson. Pior é ver bêbado acabar sendo a prinicipal figura da festa!!
ResponderExcluirVi que tens novas histórias no teu blog. Ainda não consegui ler.
Abraço.