domingo, julho 26, 2009

CASTIÇO

Castiço é o apelido de Miguel Gutierres.
Nascido e crescido na fronteira, aos 16 anos pegou o trem que fazia a linha Livramento - Santa Maria. Procuraria por trabalho e estudo. Queria ser médico de criança.
Em São Sepé, quando o trem parou na estação, Miguel não desceu para o café. Era sete da manhã. Inverno rigoroso. O minuano soprava como nunca. Ficou dormindo recostado na mala de garupa.
O pai de Miguel - o Dr. Gutierres -, estancieiro de umas dez mil cabeças, doutor formado pela vida, desejava que o filho crescesse na lida campeira.
O velho ficou sabendo da viagem quando, às 5 da manhã, foi despertar o filho para mais um dia de trabalho. O guri deixara um bilhete sobre a cama comunicando que decidira realizar um sonho.
Todas as manhãs, às vezes à noite e nas madrugadas, Miguel e alguns peões tinham que recorrer o campo a fim de fazer o balanço das cabeças da estância São Thomás, obedecendo ordens do estancieiro.
Era comum encontrar carcaças de animais carneados ou bezerros agonizando ao relento; como Miguel tinha habilidade e gosto de manusear agulhas, seringas e remédios, vez por outra ele conseguia salvar um e outro animal.
Daí nasceu o desejo de ser médico.
O banco de madeira daquele trem não era tão confortável como a cama do seu quarto na estância, mas Miguel conseguiu encontrar boa posição. Sozinho, ele ocupava os dois assentos, pois o passageiro que lhe fizera companhia desembarcara naquela estação.
A cabeça descansava sobre a sacola com documentos e roupas; as mãos firmes abraçavam um romance. Miguel lia bastante para torná-lo razoável conhecedor de literatura. Era apaixonado por narrativas históricas, ficção e contos.
Falava um português quase castiço; fazia questão de tratar a língua portuguesa com carinho e não criticava de maneira acintosa quem falasse de outra forma, pois ali, na fronteira, as pessoas falavam um dialeto próprio, característico da cultura daquela região. Havia quem não gostasse dos modos de Miguel; afinal eram muitos “esses e erres”.
Por isso recebeu o apelido de Castiço.
Acordou ao sentir a sacudidela no ombro. A enfermeira, em pé ao lado do sofá onde ele agora descansava, dizia alguma coisa que ele ainda não assimilava. O pescoço doía, pois não usava travesseiro e ele adormecera encostado no braço do sofá da sala dos médicos.
Voltando lentamente à realidade notou que a enfermeira falava de um doente que estava aguardando atendimento na sala ao lado. Ele respondeu que sim, que tudo bem, que já estava indo, que estava cansado e louco para ir embora para casa, já que o plantão estaria terminado dentro de meia-hora.
Contou ainda que tinha sonhado com o pai e o dia em que deixara a estância na fronteira, há 40 anos, para tratar de curar pessoas na cidade grande e que seu apelido era Castiço.

3 comentários:

  1. Maravilha de texto, George!
    Mudança radical de Miguel Gutierres. Nem sempre o filho segue os desígnios do pai. Eu tenho a mesma formação que meu pai, eletrotécnico, mas não trabalho na área e curso Letras, almejo ser professor. Sempre tive apoio do pai, e certamente o pai do Miguel está orgulhoso pela profissão do filho!

    Parabéns!

    Abraço!

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  2. Ah, tenho um novo continho lá, dá uma espiada quando puder! "O sujeito elíptico"!

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  3. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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