domingo, janeiro 10, 2010

INCLUSÃO SOCIAL

A expressão inclusão social, tão utilizada nos dias de hoje, deveria ser tratada com mais cuidado, pois corremos o risco de vê-la vulgarizada de tanto ser repetida. Tirante a verdadeira função de incluir ou dar oportunidade às pessoas excluídas dos processos sociais, como educação e saúde, por exemplo, devemos analisar também por outros ângulos, visto que, inserir socialmente é muito mais abrangente do que podemos imaginar.


NA POLÍTICA 
Poderíamos começar dizendo que a classe política brasileira deveria trabalhar pela própria inserção social, pois trabalham em causa própria. Basta ter acompanhado os nauseabundos atos corporativos ocorridos durante o ano legislativo e executivo, quando os maus representantes do povo saíram em defesa daqueles que não respeitam o cidadão brasileiro. A ética parece não fazer parte da formação daqueles políticos inescrupulosos.


NO FUTEBOL 
Há muito que o futebol deixou de ser o setor que mais trabalha na direção de trazer das camadas excluídas da fatia pobre da sociedade brasileira jovens miseráveis dando-lhes chances de se desenvolverem como seres humanos. Dirigentes imorais aproveitam-se da ingenuidade de atletas e torcedores. O que menos importa é a inclusão social. Empresários ávidos ganham muito dinheiro explorando famílias de meninos que mal dominam o próprio idioma, jogando-os como objetos nos clubes da Europa, sem se preocuparem com as consequências provocadas nos garotos pelo choque cultural. A imprensa esportiva por sua vez, arrogante e muito bem treinada para lucrar em cima do futebol, dedica horas opinando desde o esquema tático até o modo como os clubes deveriam administrar seus falidos cofres e, sem maiores preocupações, arriscam palpites o tempo todo.



NA RELIGIÃO 
Um grande negócio que gera lucros em cima da boa fé de pessoas incluídas e excluídas, principalmente dos pobres, carentes de educação e saúde. As igrejas “vendem” bilhetes sorteados para a inclusão, mas no reino dos céus. Normalmente é uma viagem sem volta, pois as pessoas se tornam radicais.


NA MÚSICA 
Ainda é a forma mais direta de inserção social. É popular por definição porque vem do povo e é feita para o povo. Por isso mesmo reflete o nível cultural. De baixa qualidade a música é disputada pelo mercado fonográfico porque é produto que vende em grande quantidade. A música ainda é o único canal de inclusão social apesar de estar alicerçada nos modismos criados pelos marqueteiros que trabalham para a indústria de discos. Os inseridos socialmente de hoje poderão não estar mais incluídos amanhã!


NA MÍDIA 
Formadora de opinião deveria fomentar a integração da população brasileira. Porém, a televisão como sendo a mais importante ferramenta da mídia, nos empurra padrões de comportamento, desprezando culturas muito mais ricas e sérias. Quando abordam temas relativos à inclusão social vem, novamente, o futebol como sendo a única porta de acesso a inserção social. Explora o negro como exemplo único de excluídos e tratam o índio e os brancos miseráveis com menos interesse.


NOS MAIS RICOS 
Países ricos e aqueles que são donos de enormes fortunas deveriam também inserir-se socialmente, criando e participando mais ativamente de programas de inclusão social, distribuindo um pouco daquilo que possuem a fim de proporcionar melhor qualidade de vida à parte da população miserável.


CLIENTELISMO 
Não haverá inserção social através de políticas clientelistas. Evidentemente que é salutar ver mais pessoas se alimentando. Melhor seria vê-las se alimentando e ocupando novos postos de trabalho e não sendo objeto de manobras ardilosas e populistas na busca de votos para as próximas eleições. Com trabalho seriam independentes. Mas será que independência interessa?


segunda-feira, dezembro 28, 2009

HÁBITOS ACUMULADOS




Tenho um hábito (entre tantos que se acumularam com o passar dos anos ) de ler dois ou três livros intercaladamente.
E quando tenho nas mãos um romance histórico ou que trata de História do nosso Mundão, o bicho pega!
E desta vez estou relendo HAVAÍ, de James A. Michener, UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO, de Geoffrey Blainey e A MÃO E A LUVA, de Machado de Assis.
Hábito que tenho é procurar auxílio no mapa-múndi.
Acabei pedindo – e ganhando – de presente um globo terrestre, desses que ficam sobre a escrivaninha e que giramos e chafurdamos a procura dos lugares citados nos textos.
O mais novo hábito que incorporei à minha lista eu adquiri quando, ao ler HAVAÍ, encontrei uma web radio especializada em musica havaiana.
Ler aquelas passagens que descrevem com tal realismo os cenários havaianos e ouvir a musica que embala aquela cultura é uma experiência interessante.
Com relação a Machado de Assis terei ainda que procurar por uma web radio que toque maxixe.

terça-feira, dezembro 15, 2009

A IRONIA DO ARGUMENTO E A FACA DE COZINHA

A ironia foi a maneira que Caco encontrou para tentar dar um fim àquela discussão.
Os bate-bocas, dignos em quantidade para fazer parte do Guinness, poderiam ter se encerrado com os argumentos de Caco quando propôs a sua mulher que, se ela emagrecesse 20 quilos, ele não beberia mais cervejas do que a cota social permitisse, deixaria o cigarro de lado e abandonaria a vida boêmia.
De nada adiantou, pois a baixinha-gorducha – como ele descrevia sua própria mulher – ao ouvir a proposta, transformou-se numa fera. Afinal ela não se via enquadrada naquele estereótipo, pois, longe do espelho, ela se achava com boa altura e somente um pouco acima do peso.
Ela então decretou que se ele seguisse bebendo, fumando e boêmio, não permitiria mais noites nem dias ou tardes de sexo; a cama de casal seria só dela. E foi mais longe ainda ao determinar que Caco se arranjasse num hotel, motel, casa de amigos ou até que dormisse no carro.
No artigo segundo a baixinha irada determinou que Caco não pudesse dormir com outra mulher, pois se ela descobrisse a traição, a faca de cozinha seria usada como instrumento para extirpar certo símbolo fálico.
Porém, esta ameaça não o incomodava. Ela jamais descobriria casos de adultério. Caco considerava-se um expert se bem que, ultimamente, o desejo andava meio em baixa, mas não morto.
Mesmo assim ele sempre tentava, através de carinhosos convites, ver sua mulher acompanhando-o nas incursões por pizzarias, bares e pubs, mas, repetidamente, as mesmas condições eram impostas pela gorducha.
Ele jurava nunca ter aprontado. É certo que às vezes se excedia um pouco na bebida, o que fazia dele um falastrão inconveniente: falava muito alto, quase aos gritos. Ria, gesticulava e batia no ombro dos ouvintes exageradamente.
Numa sexta-feira, na metade da tarde, Caco ligou para o celular de Celinha – a gorducha-baixinha – com o firme propósito de levá-la, à noite, a um bar alternativo. Antes passariam pela pizzaria de costume para jantar com amigos e depois os dois iriam para o bar ouvir blues, leitura de contos e esquetes.
Na imaginação de Caco, depois das canjas que sempre aconteciam no palco daquele bar, e já com o dia quase amanhecendo, ele estaria entrando em casa levando sua gorduchinha nos braços e então se enroscariam nos lençóis até que adormecessem exaustos e satisfeitos de tanto amor.
Mas, tão logo Celinha quis saber das cervejas e cigarros, Caco sentiu, mais uma vez, que não tivera sucesso na investida.
Para piorar ainda mais a desfeita ela indicou a garagem da casa como dormitório, o banco do carro como cama e, se ele escolhesse um motel e uma loira oxigenada como companheira, a faca de cozinha estaria bem afiadinha. Ameaçava-o dizendo que a castração poderia acontecer de surpresa enquanto ele estivesse bêbado de cerveja, cheirando a cigarro e com o perfume barato daquela puta impregnado na cueca.
Na verdade, Celinha não aceitara a proposta de perder os 20 quilos, nem 10, nem 5; talvez dois ou três.
Caco, por sua vez, não deixaria a boemia, os cigarros e a cerveja.
E aconteceu o inesperado.
Naquela madruga, 4 horas de sábado, Caco arrependido pelos exageros resolveu, como todo o bêbado depois de beber vários copos e fumar duas carteiras, que deixaria os vícios a partir do dia seguinte.
Falaria com Celinha e as coisas ficariam acertadas. Começaria a fazer caminhada, musculação e talvez até passasse a freqüentar restaurantes especializados em cozinha macrobiótica.
Assim decidido foi pegar o carro no estacionamento a fim de seguir o caminho de casa. Dormiria na garagem sem maiores dificuldades. Depois procuraria por sua baixinha, pediria desculpas, dois ou três beijinhos, promessas, um beliscãozinho na bunda dela – que ele já não pensava ser tão gorducha – e depois sexo na cama, na cozinha, na sala e iria aonde ela quisesse. Uma viagem faria bem para eles, pensava Caco em meio à vertigem do álcool.
No estacionamento, Caco teve dificuldades para acionar o alarme.
Foi então que uma loira alta usando saia tão curta que deixava a calcinha vermelha à mostra surgiu para socorrer nosso amigo.
Caco ficou entusiasmado com tanta mulher à disposição. Por um instante esqueceu-se das promessas que fizera minutos atrás e prontamente aceitou a ajuda.
Alertado pela enorme loira sobre possíveis blitz com bafômetros, Caco alcançou a chave do carro para que ela dirigisse. Informou o endereço de casa e partiram.
Durante o trajeto Caco tentou, sem sucesso, apalpar as longas pernas da loira perfumada, mas ela se esquivava e pedia para que ele parasse com as investidas, pois poderia provocar um acidente ao desviar a atenção.
Ao chegarem à casa de Caco e já com o carro pronto para acessar à garagem ele conseguiu enfiar a mão entre as pernas da loirosa que, perdendo a atenção, projetou o carro contra a porta da garagem.
Por causa do estrondo da batida, a baixinha-gorducha acordou e, em segundos, estava ao lado do carro.
Nas mãos ela trazia a faca de cozinha afiada como prometera.
Caco tentava explicar a situação e o acontecido. Foi terrível ver os olhos saltando das órbitas da gorducha.
A loira, nervosa com tudo aquilo e vendo a faca sendo apontada para o meio das pernas de Caco, teve que agir e, esquecendo-se da condição de travéco, tirou os sapatos de salto e saiu em disparada rua abaixo.
Quanto ao nosso amigo Caco eu soube que ainda está internado no hospital convalescendo depois de demorada cirurgia de reconstituição.
Celinha, dizem já ter perdido 8 quilos na penitenciária feminina.

quarta-feira, novembro 18, 2009

A MINHA FEIRA DO LIVRO


A minha Feira do Livro aconteceria na Praça mesmo.
Sem essa de mudar porque é verão, porque tem muita gente circulando e porque pisam nos pés das pessoas; porque tem muitas escolas e suas crianças barulhentas; porque não tem estacionamento, porque não tem praça de alimentação no centro do espaço da Feira, porque se chove fica alagado, porque etc., etc. e etc.
Aqui comigo: se eu pudesse faria algumas mudanças, mas o lugar da Feira é na Praça!
Primeiro eu começaria a falar de livros em janeiro, exatamente no segundo dia do ano, oito ou nove meses antes do acontecimento do evento literário.
Falamos de futebol durante o ano todo! Por que não falar de livros por oito ou nove meses?
O futebol, paixão nacional, tem mais de cem anos, mas os livros têm quase a idade da civilização; o futebol acrescentou quase nada; livros fizeram a evolução da humanidade.
Eu procuraria os jornais, rádios e emissoras de televisão e pediria que durante os programas esportivos que, por sinal só tratam de futebol, fosse destinado um pequeno espaço para que se falasse de livros e da Feira de outubro-novembro; sugeriria que durante o noticiário que trata das corrupções dos nossos políticos, dos assassinatos de pessoas comuns e das drogas, um pequeno espaço tivesse que ser destinado ao livro; proporia que durante o horário político - obrigatório, da mesma forma tivéssemos notícias sobre livros, autores e eventos.
Em segundo lugar eu proporia edições de livros especiais para a Feira.
Os lançamentos deveriam ter preços especiais; as editoras, a partir do segundo dia do ano divulgariam através das mídias as vantagens que os visitantes teriam na compra de volumes na Feira de outubro-novembro.
Teríamos pré-lançamentos em eventos mensais patrocinados por interessados em incentivar a cultura. Algo como Bolsa-Livro ou Vale Livro-Familia poderiam fazer parte de programas patrocinados pelos governos.
Em terceiro lugar eu convenceria as grandes lojas que vendem livros em shoppings a se instalarem na Praça. Poderiam trazer seus volumes, tapetes, ar condicionado e seus seguranças de óculos escuro. Mas teriam que cumprir pequenas exigências como oferta de livros mais baratos e ampla divulgação. As redes de livrarias deveriam, necessariamente, começar a falar de livros no segundo dia do ano, logo que a tabela do Gauchão, da Libertadores ou da Copa do Brasil viessem a ser divulgadas, ao mesmo tempo em que os primeiros tiroteios nos morros do Rio se apresentassem como a principal manchete dos noticiários.
Assim seria a minha Feira.



domingo, novembro 15, 2009

LER

LER

“Vulgar é o ler, raro é refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas idéias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é um armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas.”


(Elogios Acadêmicos e Orações de Paraninfo, Edição de Língua Portuguêsa, 1924, pág. 36).

Nota: texto extraído do livro “DICIONÁRIO DE CONCEITOS E PENSAMENTOS DE RUI BARBOSA”, EDART – São Paulo Livraria e Editora, 1967, Luiz Rezende de Andrade Ribeiro.

sábado, novembro 07, 2009

Barteatelier Camaleão Art & Boemia

Estive na terceira edição dos encontros multiculturais que acontecem sempre nas sextas-feiras no Bar Camaleão, em Novo Hamburgo.
Shows musicais, esquetes, leituras de contos e outros tipos de manifestações culturais ocorrem num ambiente acolhedor e saudável.
E para provar a vocação cultural do Camaleão na próxima sexta-feira, dia 13 de novembro, será dada a largada do projeto cultural “LATÃO DO CAMALEÃO”.
Na entrada do bar o público encontrará a lata de lixo, na qual serão colocados livros trazidos pelos clientes.
Os volumes formarão o acervo da casa e poderão ser lidos no momento em que o cliente estiver nas dependências do bar ou então levados para casa e devolvidos quando o leitor achar conveniente sem a necessidade de comprovações, fichários, etc.
Sempre que a lata de lixo estiver lotada os volumes serão doados a uma instituição que será escolhida pelo público freqüentador do Camaleão.



Agende-se: Show BBLUES "ACÚSTICO" - dia 13/11 - sexta-feira.
Bateria: Nando Arrienti
Baixo e vocal: Mauro Sarmento
Violão, harps e vocal: Uncle George

Lembrete: leve um livro para o "LATÃO DO CAMALEÃO".

O bar fica na Rua Pedro Adams Filho, 4517 no estacionamento do Dubai Bar & Restaurante, em Novo Hamburgo.
O comando é do Paulo Pioner.

terça-feira, outubro 20, 2009

HARMONIZANDO RÓTULOS

As confissões que meu amigo Jerônimo Jardim registrou no seu blog - http://jeronimojardim.zip.net/ - fizeram-me repassar minha história de aprendizagem musical.
Antes tenho que dizer: confesso ter me apropriado do título do texto do Jerônimo. Que ele permita.

Aconteceu que de meu pai herdei o gosto pela música erudita, pelo jazz, blues, canções italianas, alemãs e pelas gravações, sempre em vinis de 78 rotações, de bandas militares.
Por isso aos domingos eu não perdia uma apresentação se quer dos Concertos para a Juventude que aconteciam no teatro da Reitoria da Ufrgs.

Por minha mãe fui apresentado ao samba de raiz quando ela me fazia ouvir Ataulfo Alves, Cartola e Pixinguinha. Ela passava os dias cantarolando canções populares de Agnaldo Rayol, Cauby Peixoto, Peri Ribeiro, Jair Rodrigues, Clara Nunes e Miltinho. Muitos boleros eu tive que ouvir e tocar no violão. Talvez sua principal referência fosse Aracy de Almeida ou ainda Elizeth Cardoso.
Musica para ela era alimento.

Tempo depois minha irmã Marcia colocou na “eletrola” um “compacto” dos Beatles, depois dos Carpenters, Credence, Stones, Joe Jeffrey e então entrei para o mundo do rock e do pop. Ainda ela seria a responsável por me fazer conhecer a bossa nova através das rodas de violão e dos festivais universitários; também por ela conheci a musica coral no dia em que passei no teste aplicado pelo maestro Pablo Komlós conquistando um espaço como barítono do coral da URGS.

Quando me achava abastecido conheci uma musica gaúcha inovadora em sua sonoridade.
O musico que às vezes se apresentava com o violão Ovation nos churrascos de domingo na casa de meus pais era Jerônimo Jardim. As harmonias me encantaram.

E, como fez o meu amigo no seu blog, tenho que confessar: fui discriminativo, pois evitei o rótulo da “musica sertaneja”.
Portanto, receio ter que voltar às minhas confissões mais adiante já que ainda não administro muito bem o rap, os grupos de pagode, funk e alguns outros estilos meramente comerciais que ouvimos por aí.

Tentarei harmonizar os rótulos.

sábado, outubro 17, 2009

O VENTO E AS IDEIAS

Perguntou-me um amigo:
- De onde saem as ideias?
Pois é: de onde? – pensei. Eu respondi que...sei lá....
- Como, sei lá? – indignou-se o cara.
Eu não soube explicar, mas lembrei que Érico Veríssimo disse que “as ideias aparecem com o vento”.
Às vezes penso que as histórias, os desenhos, as canções e essas imaginações todas estão guardadas num canto da cabeça fazendo hora; noutras vezes fico assustado com a quantidade delas. Puro fervilhamento!
E quando leio boas histórias fico entusiasmado.
Cenários, personagens, barbas, cabelos, olhos mais ou menos verdes ou azuis, mulheres lindas e feias, montanhas, rios, penumbras, sombras, praias, campos, traições e tramas... E por aí vamos. Tudo desfila por trás dos olhos; nos bastidores; detrás da câmera.
Como explicar?
É um louco quem inventa e conta histórias? Solitário ser humano? Esquizofrênico? Egoísta porque não conta todas que conhece? Arrogante? Altruísta porque conta algumas?
Sei lá!

terça-feira, outubro 06, 2009

LISCA - O domador

Julho ou agosto. Fazia muito frio ao pé da Serra do Caverá. O vento pampeano não encontrava poeira alguma para levantar. A terra úmida deixava a estrada embarrada e escorregadia. Do mata-burro até a sede da Estância Santa Leonida, Lisca levava, a pezito, um pouco mais de um quarto-de-hora. Bota de cano alto, poncho surrado, uma boina de lã e a velha mala de garupa, que agora descansava sobre seu ombro direito. O lado esquerdo do negro Lisca era mais arriado que o outro. A mala escorregava e caía..
De tantas quedas sofridas, o negro já havia quebrado quase todos os ossos do corpo. Mas, ainda assim era forte como o redomão que, quando avistava o peão domador ponteando na coxilha, resmungava entre corcoveios e relinchos.
Atado no palanque e levando uma sova atrás da outra, entre gritos de “te-acalma-redomão”, Lisca suava para dominar o animal. O crioulo então, desatou as rédeas do palanque, encilhou o maltratado cavalo, montou-o e riscaram em direção à taipa, que era rodeado por corticeiras. E foi numa delas que o corcel deu de cabeça, furioso que estava pelas surras que tinha levado do negro. Logo sangrou pelo corte provocado em consequência do esbarro cometido. O tronco arrancou-lhe um pedaço do couro rosilho.
Próximo dali, embaixo de uma figueira centenária, Lisca derrubou o seu amigo ferido, algemou-lhe as patas com tiras de couro e iniciou a cirurgia. Costurou a testa do animal depois de passar um “splay” - como Lisca falava - para amenizar a dor do bicho. Com o joelho no pescoço do cavalo, examinou o tordilho. Lisca, então, o batizou: - Ele vai se chamar Remendo, o Redomão.
Anoiteceu. Depois de tomar uns mates com os companheiros de lida e lasquear a paleta de ovelha aquecida no fogo de chão, Lisca pediu licença e saiu do recanto onde proseavam seus amigos.
Pegou uns pelegos, o poncho, a mala de garupa e foi para baixo da figueira. A cachorrada saiu atrás. Recostou-se no tronco, fez um palheiro e descansou sua adaga bem ao lado para um causo de emergência. Acendeu o cigarro, puxou uma daquelas longas tragadas, olhou para o nada e soltou devagar a fumaça.
O frio e o vento não lhe incomodavam. Sentiu-se até muito bem. O frio, acalmava-o; o vento trazia o cheiro da terra e do campo. Quanto mais forte o vento soprava, mais claro ele ouvia o barulho dos quero-queros e siriemas cuidando da noite.
O som de uma oito-baixos vinha do galpão, misturado às risadas da peonada ouriçada pelos tragos que bebiam. A guampa rolava de mão em mão, quase discreta.
Lisca se perdeu em pensamentos no meio da fumaça de seu palheiro. Não era dado a longas conversas, a não ser consigo mesmo. Hoje o negro completava 52 anos de vida e 30 de doma.
Durante muito tempo Lisca levou uma vida nômade, “gáucha” de verdade! De estância em estância na época da esquila, e de invernada em invernada, domando cavalos e éguas pelas terras dos doutores patrões. Era seu aniversário e nada de churrascada, nada de guampas encharcadas de canha, nada de mulheres.
Na sua lembrança surgia a imagem de sua mãe. De certo que “Dona Lilica” estaria preparando a janta na sede da Estância do Paço, bem longe dali. De seu pai veio-lhe a figura de um negro com braços tão fortes que seria capaz de derrubar um sobreano com um único tapa.
Mal e mal conviveu com seu pai. O “Negro Valdo”, como era chamado, morreu depois de ser picado por uma cruzeira quando percorria o campo, numa noite quente de verão, atrás de ladrões de gado. Seu pai não resistiu e morreu quando Lisca tinha 10 anos. Aos 12 saiu para a lida e, de verão em verão, visitava Dona Lilica.
Uma dor forte na perna esquerda fez o negro Lisca interromper seus pensamentos. A dor era sua velha conhecida. Foi de um tombo que o fez “cair no chão”. O osso grande da perna se quebrou em duas partes. A ponta de um deles rasgou o couro e ficou pra fora. O sangue jorrava pra todo lado.
Na época da quebradeira Lisca domava cavalos em uma estância que ficava do lado de lá da fronteira. O campo dos uruguaios ficava longe de tudo. Não havia recurso. O único disponível, na hora da fratura vinha de uma parteira que entalou a perna do negro Lisca com pedaços de lenha usadas para aquecer as estufas e salamandras.
Lisca se curou. “Ficou mal juntado”, explicava o negro.
Aos 52, Lisca fazia um balanço de sua vida. Sabia que era um dos melhores domadores da fronteira. Havia domado “uns quantos” cavalos e éguas. Nunca fizera as contas e, quando um ou outro gaúcho lhe perguntava quanto tinha juntado de dinheiro, Lisca desconversava e bebia mais um gole. Mas quando lhe faziam um elogio, o negro ficava mais feliz que cusco em churrascada domingueira. Aí, contava daquela doma e do outro tombo e da égua que lhe quebrou a perna, e mostrava a cicatriz e o calombo que aparecia na canela.
Nessa noite no entanto, Lisca estava meio malito. Sentiu-se triste, confuso, sem explicação. Foi até o galpão, deu de mão na primeira guampa de canha que avistou e voltou para sua figueira. Um ovelheiro havia deitado sobre seus pelegos. No primeiro momento, Lisca teve vontade de correr o laço no guaipeca, só que hoje, Lisca estava diferente. Sentou-se ao lado do Peludo, passou a mão pela cabeça do cusco e concluiu que ali estava um companheiro fiel.
A oito-baixos tocava uma valsa triste. Lisca chorou.
As lembranças de seu pai e de sua mãe, os seus 30 anos de lida, “as quantas domadas”, as mulheres que teve e as que não teve, o dinheiro que não ganhou, a gaita soando ao fundo, os quero-queros e o vento fizeram Lisca sentir um pouco de frio.
Na verdade ele não sabia o que estava lhe acontecendo; pelo que se lembrasse, nunca havia ficado tão triste como agora... Ficou pesaroso quando morreu o “Doutor João”, seu patrãozito da Estância do Paraíso; outra vez ficou magoado quando mataram algumas cabeças do plantel de primeira dos correntinos... mas, desse jeito de agora, Lisca nunca tinha ficado.
No seu balanço, Lisca concluiu que, de tudo que teve, lhe sobrara solamente um cavalo, o Remendo, os pelegos e trapos, uma adaga, um ovelheiro e...nada mais! Acabou emborcando a guampa e tomou a canha até o fim. Sentiu-se menos triste.
A oito-baixos se aquietou. Ele, virou-se, olhou na direção do galpão e viu apenas a luz do lampião na porta de entrada. O cheiro da lenha queimando vinda da lareira da casa grande, fez Lisca respirar fundo e fechar os olhos. Sentiu menos frio. Adormeceu encostado no Peludo.

Nota do autor: conto premiado em 2007.